A FIBRA DOS CANÁRIOS-DA-TERRA

26/07/2010 19:15

 

 

 

Quais os motivos que fazem do Canário-da-Terra ser o pássaro mais comum (e querido) nas gaiolas desse nosso Brasil??? Que estranha atração é essa??? Seria a predominante cor amarela que o torna tão lindo e agradável aos nossos olhos??? Seria seu canto de diversas formas estalado que nos lembra agradáveis rincões que vimos ou sonhamos??? Seria sua incrível capacidade de adaptação aos mais diversos ambientes e sua incrível capacidade reprodutiva??? Seria sua aguerrida valentia não superada por nenhuma outra espécie de pássaro???

Mas, então, por qual razão o número de Canários-da-Terra vem diminuindo nos Torneios de Fibra??? Seria em razão de possíveis dificuldades da marcação de seus cantos de múltiplas versões??? E porque razão é sempre o último na ordem das marcações dos torneios???


Avento outra hipótese: A enorme dificuldade de se criar Canários de Fibra.


Ahh, a Fibra!!! Êita qualidade desejada, procurada, pouco encontrada e difícil de ser descrita. Pior, vem sempre associada à Valentia.

Dou minha definição: A Valentia é a impetuosidade o destemor que o atira aos confrontos sem medir conseqüências e resultados. É uma das características admiráveis dos CTs que os transformam em aguerridos combatentes. A Fibra é capacidade de manter e sustentar por horas, seu canto e postura mesmo que cerceado por incontáveis contendores. É a “personalidade” firme que não se dobra nem se rende tal qual “sandália de padre” que mesmo desgastada continua pronta para a próxima peregrinação. Mas em que grau é essa Fibra ou Valentia??? Terão “mais ou menos” Fibra os que, durante um torneio, pouco se movimentam e cantam calma e ritimadamente acomodados em um poleiro, ou aqueles que conseguem manter um alto número de cantadas voando de uma grade à outra, não se atendo a um só poleiro. Como Comensurar o Incomensurável?? Qual dos dois tipos acima descrito seria o mais indicado à reprodução. Ou nenhum deles??? Se isso já não bastasse acresçamos a inquietante dificuldade da transmissão dessas qualidades à prole. Minhas observações pessoais me levam a concluir que ainda estamos tendo pouco sucesso em reproduzir em nossos filhotes essas qualidades tão características e desejadas. “Até um imbecil passa por inteligente se ficar calado.”


Mesmo correndo o risco de julgamentos, começo a expor aos amigos algumas teorias:

* 1 – Como mensurar a Fibra???

* 2 – A Fibra e Valentia são hereditárias, aprendidas ou adquiridas???

* 3 – Será a seleção dos canários mais difícil que a de outros pássaros???

 

O ponto máximo de análise da Fibra são os torneios. Lá essa qualidade é posta à prova em tensão máxima. Não raras vezes, os Canários viajam horas em plena madrugada para estarem no local do torneio antes das 8 horas da manhã; participam do torneio, disputando canto a canto ao lado de algumas dezenas.

A FIBRA DOS CANÁRIOS-DA-TERRA de outros Canários, permanecendo até por volta das 12 horas, cantando sem parar e ainda conseguem sair deste dificílimo embate cantando e evidentemente nos deixando extasiados. Mas para que se possa medir essa Fibra serão necessários no mínimo 2 ou 3 longos anos para a maturidade do pássaro e preparação para tais torneios e dificuldades. O ponto máximo de demonstração da valentia são as “brigas de Canários”. Não se trata de aprovar ou não. O fato é que mesmo proibidas elas existem e é uma realidade em todo o Brasil, desafiando a legislação e a fiscalização. Indiscutivelmente, vemos nesse meio, Canários de primeiríssimo time que muito bem poderiam ser aproveitados em nossas seleções, pois viriam enriquecer plantéis e teriam muito a transmitir. Acredito ainda, que tanto a Fibra como a Valentia são caracteres hereditários e assim sendo, lembrem-se que a hereditariedade é um fenômeno biológico que permite aos reprodutores passarem para seus descendentes suas boas ou más qualidades. Esse assunto já foi por muitas vezes comentado e discutido, mas como “aprendemos mais quando questionamos o que parece óbvio” (filósofo e criador mineiro José Carlos Luz Martins), chamo a atenção para dois depoimentos que transcrevo: “Também não conheço trabalhos sobre seleção genética dos nossos pássaros, na verdade não tenho informação se características como valentia, fibra seriam herdadas ou aprendidas; Pássaros que vivam em uma região com fartura de comida e locais para ninhos não precisam ter tanta fibra e valentia como aqueles em que na região a comida não é tão farta e os locais para ninhos são poucos, este fato leva algumas pessoas a imaginar que o processo que estes caracteres não são herdados, mas aprendidos. Se for hereditário funcionaria como qualquer mutação de cor. O problema é que na imensa maioria das variações de cores estão envolvidos apenas 1 ou 2 pares de genes, então é mais fácil de controlar, estudar e prever, características como fibra e valentia poderiam ter mais genes envolvidos o que dificultaria um estudo. O segredo desta história é sempre anotar tudo, só assim de posse de resultados é que dará para saber se é hereditário e como funciona. Trabalhar com mutação de cor é muito mais fácil, por ser facilmente visível e não depender de outros fatores: saúde do pássaro, alimentação, etc., que provavelmente teriam influência na fibra e valentia.” Paulo Flecha, Criador de Pássaros, Ornitólogo e Pesquisador.
De pronto esse depoimento nos remete a uma reflexão:

Nós que fazemos a reprodução dos canários em pequenas gaiolas, estamos errando o manejo dos filhotes??? Deveríamos soltar todos os filhotes em grandes viveiros com poucos pontos de comida e abrigo e deixar que as dificuldades os moldassem??? Seriam revelados os bons??? E que destino dar aos demais??? Não correríamos riscos desnecessários???

“Talvez a genética seja o item mais importante em todos os animais. Se você puder aliar uma boa genética a um bom manejo, você terá sempre um grande pássaro. Eu trabalho em meu criatório com o máximo empenho em genética e por incrível que lhe pareça estou tendo problema com meus filhotes, os mesmos vem vindo com muita fibra e com isso não aprendem a cantar o canto clássico. Para quem quer canto clássico a característica ‘fibra’ não é ‘boa’; os filhotes não aceitam o disco e cantam sem parar e com isso não aprendem as notas do canto. Erram na marcação das notas e não respeitam os mestres. Tem filhote que estraga o mestre se você permitir a demanda entre os dois”. Isair Alves – São Paulo-SP. Selecionador de Curiós de Canto Praia Clássico com mais de 40 anos de experiência.

Aqui vemos que a Fibra vem sendo herdada mesmo não estando nos objetivos do criador, que com certeza teve esta qualidade nos pássaros formadores de sua linhagem. É certo também que as qualidades iniciais da formação da linhagem ressurgem espontâneas e que de um espetacular campeão cruzado com uma fêmea de iguais qualidades, poderão formar uma geração totalmente heterogênea e sem o menor valor, isto porque suas qualidades podem ter sido herdadas por simples atavismo, sem caracteres fixos das famílias e linhagens às quais pertencem. Muitas vezes esses bons caracteres provem de ancestrais muito distantes. De um mesmo casal de reprodutores poderemos obter filhos expoentes ao lado de medíocres, ou seja: “É um erro apegar-se ao princípio de que só nos darão bons produtos os descendentes de indivíduos excepcionais, deixando de lado o valor das linhagens, o que é mais essencial” Georgio de Baseggio. E não pensem os passarinheiros que são os únicos que tem dúvidas e incertezas. Transcrevo um trecho de um depoimento colhido de um Columbófilo de Competição (Pombos Correios), a seus pares: “Como os criadores inteligentes sabem muito bem, em treinos iniciais não se pode tirar nenhuma conclusão precipitada, mas como alegria de pombo meia-asa dura pouco, alguns têm que vibrar logo porque depois... só Deus sabe. Estou só no aguardo, já tem muito pombinho meia-asa (meia asa é pombo cruzado com ornamental, pombo mal cruzado, ma alimentado, mal tudo...) chegando de bico aberto e asa baixa; só chegarão na frente se for uma cagada muito grande, que vez ou outra acontece; Vamos aguardar o final, e como eu disse no e-mail anterior: Não esquenta não que alegria de pombo meia-asa dura pouco. He... he... heheheheeeeee....” Para avançarmos e passarmos a ter criações com bons resultados, temos que colher depoimentos de resultados e experiências de inúmeros criadores e competidores. O segredo desta história é sempre anotar tudo, só assim de posse de resultados é que dará para saber se tais caracteres são hereditários e como funcionam. Qual o manejo vem obtendo o maior número de bons competidores. A orientação é clássica: “siga em frente, faça anotações e divulgue as suas experiências e conclusões, estamos todos precisando desse tipo de informação”.

Os desafios de conseguir um pássaro cada vez melhor, não terão fim. De nossa parte concluímos que Genética e Manejo tem que estar unidas visando um mesmo objetivo. Decidir pelo contrário poderá fazer sua criação virar “um barco a três”: O primeiro olha para um lado. O segundo rema na direção oposta. E o capitão finge que não vê.

Mestre Luiz Antonio Taddei - Consultor técnico e estudioso de seleção genética animal